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 Boletim Lisboa Urbanismo - Ano 2001


Lisboa
LOFT

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R. Tenente Valadim, 6-12 e Av 24 de Julho, 152-158

Trata-se de recuperar um velho edifício industrial, uma fábrica de há quase 100 anos, com uma arquitectura característica da época, adaptando-a a novas funções capazes de rentabilizar o espaço e justificar o investimento necessário para a sua conservação e restauro, mantendo as suas características.

Adapta-se o edifício a novas funções, em vez de o demolir, o que é positivo, mesmo considerando que não se trata de uma construção de qualidade arquitectónica particularmente interessante, mesmo para a época.

As instalações portuárias e industriais construídas durante o Século XIX e início do Século XX foram sendo progressivamente abandonadas a partir dos anos 60, devido a várias razões que têm a ver com a importância decrescente dos transportes marítimos, o crescimento explosivo das cidade e o desenvolvimento tecnológico, entre outras, que obrigaram a alterar os critérios de produção e transporte de mercadoria. Seja como for, as velhas fábricas e armazéns foram abandonados, degradando-se e degradando o ambiente à sua volta.

Estes espaços - a palavra LOFT significa espaço amplo destinado a armazém ou semelhante" - começaram pouco a pouco a ser aproveitados por gente mais ou menos jovem com poucos recursos, ou por ser diferente, ou por necessitar de espaços maiores, que foram adaptando às suas necessidades de habitação ou trabalho, até que viver num "LOFT" se tornou numa espécie de moda, que em Portugal foram conhecendo através do cinema (estou a lembrar-me de Blow up do Antonioni). Viver numa LOFT passou a corresponder a uma maneira diferente de estar na vida, e assim foram sendo recuperados espaços abandonados e degradados.

Foi esta a ideia que deu origem ao projecto.

Tratou-se de adaptar um edifício industrial com perto de 100 anos de idade a novas funções de habitação, atelier ou ambos, procurando restaura-lo e respeitá-lo o mais possível e acrescentar-lhe o máximo de elementos e equipamentos necessários.

Claro que não se trata do "LOFT" improvisado, mas de um empreendimento imobiliário baseado no conceito de "LOFT": a velha fábrica de lâmpadas vai ser convertida num conjunto de espaços de habitação que cada um possa utilizar como entender, espaços abertos com dois níveis, sem paredes divisórias interiores a não ser as sanitárias e quartos de banho, cheias de luz e situadas na zona ribeirinha de Lisboa.

Respeitou-se a memória colectiva de cidade, no plano geral, e o edifício existente no particular.

É a primeira vez que este tipo de intervenção se faz em Portugal virado para a habitação, embora já tenha sido feito, com êxito , com outras finalidades, como é o caso das vizinhas docas de Alcântara, para citar só um exemplo.

Raul de Abreu

Arquitecto

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Houve uma alteração ao programa inicial que previa dois tipos de ocupação: comércio, ou serviços no piso térreo, e habitação nos restantes pisos.

Esta mudança de planos é fundamentada pela seguinte razão: simplificando o programa limita-se as necessidades decorrentes do seu cumprimento e, portanto, os problemas a resolver e as alterações a fazer ao edifício existente, já que se pretende conservá-lo.

Foi esta a preocupação que desencadeou o processo: procurar uma solução que tenha menos implicações na construção existente, sobretudo na sua estrutura, e reduzir as alterações ao mínimo indispensável. Onde estavam previstos dois tipos de ocupação, passou a haver só um, que é a habitação, eliminando do programa os serviços.

Desta forma é possível uma solução para o estacionamento num único piso, com todas as vantagens decorrentes: melhor aproveitamento do espaço disponível, economia da construção, conservação da estrutura, etc. Inconvenientes: aparentemente, nenhum.

Deixa de haver necessidade de acessos independentes para os dois tipos de ocupação do espaço, portanto menos escadas, elevadores, etc., e facilita-se a circulação tanto de pessoas como de carros. Onde existia duas rampas para acesso e circulação automóvel no interior do edifício, passa a haver só uma; deixa de ser necessário construir uma laje só para estacionamento, uma escada e elevadores independentes só para acesso aos escritórios e, principalmente mexe-se menos na estrutura antiga, que é o aspecto mais importante da proposta.

Este projecto alternativo, tem a vantagem de alterar menos o original, em particular a sua estrutura, o que é fundamental em face da sua idade e mais do que prováveis deficiências, consequência da sua concepção e execução forçosamente limitadas pelos meios e técnicas da época em que foi executada.

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A solução para o estacionamento permite transmitir a respectiva sobrecarga directamente ao terreno e obriga a alterar o sistema de comunicações verticais previsto no projecto anterior, mais uma vez em benefício da estrutura existente, evitando a construção de caixas de escada que obrigavam a "furar" os pavimentos, antes procurando tirar partido da estrutura antiga e mesmo reforçá-la: falamos das paredes mestras de alvenaria, principalmente o núcleo central do corpo do edifício contíguo ao Hotel Infante Santo e as paredes de contraventamento do corpo recuado, elementos que a solução do projecto anterior afectava, diminuindo a respectiva capacidade de resistência e obrigando a considerar reforços que devem ser evitados na medida do possível.

A nova concepção do sistema de comunicações verticais, que ao tentar respeitar e aproveitar a estrutura libertou o espaço disponível, permitindo que a respectiva modulação servisse de base ao desenvolvimento do projecto. O piso térreo será totalmente ocupado pelo parque de estacionamento seguido de quatro pisos de habitação. A eliminação dos escritórios permite aumentar o número de unidades de 64 para 75.

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A organização do estacionamento obedece ao critério de adaptar as medidas regulamentares à estrutura existente, permitindo circular e estacionar sem dificuldade nem recurso a manobras.

As condições de segurança contra incêndios também são cumpridas, tendo sido mantidas as características do anterior projecto, apesar da alteração das comunicações verticais.

Neste projecto, uma das caixas de escada dispõe de iluminação e ventilação naturais, e foi considerada mais uma saída para o exterior (Av. 24 de Julho), o que melhora a segurança do edifício neste aspecto.

O conceito de "LOFT" é novo em Portugal. Procurou-se respeitar tanto quanto possível os regulamentos em vigor, necessariamente adaptados a uma situação nova.

Autoria do projecto:

Raul de Abreu, Miguel Varela Gomes
Arquitectos